13 de Março de 2017

Mesmo antes de o SXSW 2017 começar, já dava pra saber qual seria a tônica dessa edição: inteligência artificial. Simplificando, você pode pensar em IA como comportamentos similares ao humano – só que protagonizados por mecanismos tecnológicos. Pelo celular. Pelo computador. Pelo forno de microondas. Pelo robozinho fofo e cínico que engana o Captcha ao dizer que não é um robô (no YouTube: Robot beats “I am not a Robot” Captcha). Assistam, é surreal.

Aliás, taí uma palavra que sempre traduziu bem o assunto: surreal. Em 1984, James Cameron lançou o filme O Exterminador do Futuro (The Terminator) e imortalizou a frase “I’ll be back”, proferida por Arnold Schwarzenegger. A história é pura ficção científica, mas sempre deu um friozinho na barriga porque provocava reflexões do tipo: “OK, é Hollywood, não é real. Mas, pensando bem, pode acontecer de verdade”. O longa conta as aventuras de um ciborgue que volta no tempo (lá do ano 2029) para mudar o rumo das coisas no planeta. O resto é spoiler para quem ainda não viu esse clássico dos anos 80. Mas o ponto, aqui, é: se a tecnologia avança o suficiente para produzir robôs tão inteligentes ou mais que as pessoas, como impedir uma rebelião deles contra nós? Ótimo ponto para produzir, lançar e vender um blockbuster que, na sequência (Terminator 2: Judgment Day, de 1991), ganhou o Oscar em quatro categorias. Mas vamos parar por aí. Apesar da narrativa de Cameron ser incrível e ter funcionado muito bem no cinema, não é razão para assustar ninguém hoje em dia. Quer saber o que realmente dá medo quando o assunto é IA? Desconhecimento.

Não, inteligência artificial não é novidade. Mas assusta porque o tema ainda é muito nichado. Não é mainstream, então parece distante e concentrado na mesa de discussão dos mais antenados, nerds, cientistas malucos, hypes e tech lovers. Lembra quando o BlackBerry* ainda era aquele aparelho grandão, caro, cheio de botões que pareciam indecifráveis, que mandava e recebia email, que lançou o BBM muito antes do mundo conhecer o WhatsApp e era símbolo de status no mercado corporativo americano? Era apenas um smartphone, gente. Mas parecia coisa de outro mundo porque era para poucos.

Tem gente que torce o nariz quando escuta “mainstream” porque se incomoda quando as coisas deixam de ser exclusivas. Mas esse pensamento, pelo menos quando o assunto é tecnologia, é bobagem. Tecnologia para todos, apesar de parecer nome de programa de governo, é fundamental para fazer com que a vida das pessoas fique mais fácil, simples, produtiva e inteligente. Pense no BlackBerry e em todos os outros smartphones que vieram depois. Eles não viraram mainstream porque foram lançados com campanhas publicitárias maravilhosas ou estratégias de PR inéditas. Eles ganharam lugar de destaque na vida das pessoas porque se provaram relevantes em um mundo absolutamente conectado, ágil, dinâmico e sem tempo a perder. É simples. E é o que falta para que o conceito de IA deixe de ser apenas teoria intangível e vire prática do dia a dia.

Relevância é um dos principais critérios de sucesso de uma marca. Você, como um serviço, um produto ou uma empresa, precisa fazer sentido e diferença na vida das pessoas. Por isso, quanto mais fácil de entender e usar inteligência artificial, menos medo as pessoas terão. E aí o céu é o limite para o nascimento de novos consumidores, mercados, soluções, hábitos e tendências.

Uma busca rápida na programação do SXSW desse ano comprova o quanto o assunto é quente. São diversas palestras e painéis que abrem diálogos sobre inteligência artificial e sua relevância real na vida das pessoas. IA na medicina. IA na conexão entre marcas e consumidores. IA em estratégias anticorrupção. IA ligada a educação infantil, autoestima, culinária, neurociência, criatividade e até alguns questionamentos ultra polêmicos, como a relação entre inteligência artificial e fascismo.

Não tem volta. IA é parte das nossas vidas e está na agenda de muitas e muitas marcas inovadoras do mundo todo (inclusive das que ainda nem foram lançadas). O desafio agora é quebrar o mito de que ela é coisa de cinema. Ou só de cinema. E, quando isso acontecer de fato, o medo do novo será substituído pela sensação que vem sempre grudada nas grandes inovações da humanidade: “como conseguimos viver tanto tempo sem isso?”.

Vejo com muito otimismo a abordagem sobre inteligência artificial no SXSW 2017 porque fica claro um movimento de “popularização” do tema. Claro que o SXSW, hoje, não é símbolo popular e nem tem apelo para todo mundo. Mas as milhares de pessoas que estão na cidade mais liberal do Texas para o evento vão sair daqui com muito mais inspiração, informação e ferramentas para disseminar, criar, testar e recriar sobre o assunto. E isso inclui diversos tipos de profissionais. Do cara que escreve sobre tecnologia ao que desenvolve. Do que compra ao que vende. E, principalmente, do cara que entende muito do assunto até o que ainda acha que IA é coisa do demônio – ou dos filmes “trash-cult” dos anos 80.

*BlackBerry não é exemplo de inteligência artificial neste artigo. Foi citado apenas como referência de inovação nichada.

Este artigo foi publicado originalmente pelo Meio & Mensagem.