20 de março de 2018

Por Giovanna Audi, Coordenadora de Projetos da Laje

Uma das verdades absolutas que parece reinar nos corredores do South By Southwest, em Austin, – sem exageros ou meias palavras – é que a tecnologia e, sobretudo, a revolução protagonizada por ela, que vivemos atualmente, excluem definitivamente a palavra “impossível” do nosso vocabulário. Essa máxima, repetidamente apresentada por nomes como Tim O’Reilly, Bruce Mau, Hector Ouilhet, Laura Granka, Bozoma Saint Jonh, Sadik Khan e, especialmente, Amy Webb, a fundadora do Future Today Institute; destaca uma série de conquistas e paradigmas estabelecidos por esse movimento, mas nos leva à seguinte pergunta: se temos em mãos esse incrível novo dicionário de possibilidades, o que nos impede de efetivamente promovermos as mudanças que queremos ver no mundo?

Meu palpite: a forma como pensamos e, sobretudo, como encaramos os desafios dessa nova era. Não restam dúvidas de que estamos passando por um momento de extrema transformação e tais mudanças nunca impactaram as pessoas e os negócios tão rápida e profundamente. Mas o que essas mesmas pessoas e organizações parecem não perceber é que os mesmos desafios que se apresentam podem ser encarados como grandes oportunidades de crescimento.

Segundo Bruce Mau, Chief Design Officer da Freeman e ganhador do prêmio Cooper Hewitt de Design, o “boom” tecnológico que estamos presenciando há algumas décadas inaugurou a era da transparência, o que tem causado impactos irreversíveis nas instituições mais antigas que conhecemos. Essa transição, segundo Mau, deflagrou o que já desconfiávamos: a falência das estruturas mais tradicionais da sociedade como governos, grandes corporações e até mesmo as relações pessoais e profissionais. Isso abriu caminhos para que novos modelos de negócio e criação de valor para as pessoas surgissem.

Por muitos séculos, fomos drivados por uma forma linear de pensar – o que certamente funcionou por um bom tempo. Contudo, a emergência da tecnologia e novos modelos de negócio, e as profundas mudanças nas principais instituições sociais, tornaram esse modelo mental insustentável. Para sobreviver e prosperar em um mundo de tantas transformações, outras estruturas organizacionais e, sobretudo, um novo mindset se tornaram imprescindíveis.

Tim O’Reilly, durante sua palestra “Do More Things. Do Things That Were Previously Impossible”, disse que a tecnologia é o nosso poder, mas que a iniquidade é a nossa kryptonita. Com isso, ele quis dizer que essa revolução tecnológica que vivemos inaugurou infinitas novas possibilidades tanto para os negócios quanto para a melhoria da qualidade de vida da sociedade, mas que, tão poderosas quanto, as estruturas tradicionais e a desigualdade social nos impedem de enxergar e alcançar essas variáveis de sucesso.

Eu vejo dessa forma: mesmo com as inúmeras oportunidades que a revolução tecnológica trouxe, se continuarmos pensando de forma linear e enxergando os desafios dessa nova era como limitadores para o desenvolvimento das instituições, continuaremos alimentando a distância entre o que somos e que podemos ser.

Artigo originalmente publicado no Meio & Mensagem

Foto: frame de vídeo publicado por SXSW