14 de agosto de 2017

Sou designer gráfico no Brasil. Mas o que isso quer dizer?<br><br>Quando comecei a entender o design gráfico, já no final da faculdade de desenho industrial – pois é, design a gente só entende de verdade depois de vivenciar um pouco – existia uma discussão sobre o que era o estilo de design gráfico brasileiro e se tínhamos uma identidade nacional. Estudávamos o estilo de design suíço – rigoroso e cheio de estrutura; o japonês – limpo e minimalista, mas com a presença do humano; o francês – mais romântico e questionador; o americano – sempre buscando uma interpretação do que há de mais moderno; e até mesmo o estilo cubano – representado nos belos cartazes de cinema produzidos em processos de produção serigráficos, “graças” às limitações impostas pelo embargo comercial.<br><br>E foi com esse mesmo olhar curioso que visitei a <a href=”http://bienaladg.org.br/” target=”_blank”>12ª Bienal Brasileira de Design Gráfico</a>, 20 anos depois do meu questionamento inicial. O design gráfico, assim como outras formas de expressão, é a representação da cultura de um país. Fazer design é produzir cultura; e a cultura, por sua vez, nos dá insumos para produzir visualmente.<br><br>Mas o que seria essa cultura brasileira com o olhar do design? Vivemos em um país que se construiu visualmente. O país do “futebol arte”, da dança, do carnaval, dos corpos plurais e seminus em praias paradisíacas; o país da criatividade, que vai do samba ao funk, do forró ao rock; e tantas outras expressões populares que povoam nosso imaginário e nossa cultura. Somos também o país do jeitinho, do jogo de cintura, de querer se dar bem nas pequenas coisas do dia a dia. Somos também o país dos impeachments, das malas de dinheiro, das gravações comprometedoras, da justiça com punição seletiva.<br><br>Rigor. Não somos um país que valoriza o rigor. Como, então, construir um bom design, que tem como premissa a prática constante, a insistência, o erro e o acerto e, principalmente, bastante conhecimento para ter qualidade e causar um impacto verdadeiro?<br><br>Design é uma metodologia de projeto, uma forma de encarar e solucionar problemas. Trata-se de olhar o todo e sintetizar um emaranhado complexo de informações. O uso do design é tão variado quanto as suas possibilidades: no desenho de modelos de negócios através do <strong>design thinking</strong>; no desenvolvimento de novas experiências de uso, com o <strong>design de serviços</strong> e na representação visual de um conceito, com o <strong>design gráfico</strong>.<br><br>Bom, e o design gráfico dessa Bienal? Vi muitos projetos legais. Sem dúvida, representa o melhor que produzimos nos últimos dois anos. Tem projeto de sinalização de fábrica com reutilização de caixas de papelão; revista que alinha processo de produção apurado com uma diagramação inteligente e lógica; sites elegantes e funcionais. Também há Marcas, tipografias, vídeos, projetos expositivos e de aberturas de evento. Na exposição realizada na Caixa Cultural de Brasília estão os 50 projetos destacados pelo júri nas mais diversas categorias. No catálogo, entram todos os outros. São mais de 500, uma amostra rica e diversa sobre o design brasileiro – veja todos no <a href=”http://bienaladg.org.br/selecionados/” target=”_blank”>site</a>.<br><br>Outro fato interessante é que o evento acontece em Brasília, cidade parque, símbolo da arquitetura e modernismo nacionais. E é nessa cidade que chego a uma conclusão – meio breve, afinal tenho 20 anos de profissão, mas não sou um pesquisador do assunto. O design gráfico brasileiro é diverso como o nosso povo e como o nosso jeito de lidar com problemas culturais e sociais; é belo e, ao mesmo tempo, pouco rigoroso; é preciso e objetivo, mas sem perder o gingado e a criatividade; tem consistência e diversidade.<br><br>Nessa confusão, identificamos uma coerência em nossa produção gráfica. Uma coerência que, de tão ampla e difusa, pode parecer que não chega a formar um conjunto. Mas o conjunto está aí, na mistura, na falta de rigor, mas também no estudo, na criatividade despretensiosa e leve, que surge meio de forma espontânea.<br><br>O design gráfico que produzimos por aqui tem a cara dos nossos contrastes, tem a cara do nosso país. <strong>Tem o jeitinho brasileiro</strong>.