20 de março de 2018

Se, nas palavras de Bruce Mau, mudanças significativas só acontecem através de inspiração, deve estar aí uma das razões do sucesso do SXSW. Uma concentração de gente criativa e inquieta trocando inspirações e buscando mudanças. Saio do primeiro dia do festival inspiradíssimo por Carla, Bruce e Esther.

Carla Busazi: o futuro
The anatomy of a trend

A primeira coisa que acontece quando se chega no SXSW é ser contaminado por um enorme sentimento de FOMO. Para administrar tal sentimento, já escolhi de saída a palestra da ex-editora-chefe do Huffington Post e atual diretora da WGSN, Carla Busazi para dar um upgrade nos meus conhecimentos sobre tendência. A ideia de entender a anatomia de uma tendência me pareceu um caminho coerente para não virar refém das mesmas.

Numa apresentação impecável, Carla compartilha como sua metodologia que mistura ciência e arte traça trajetórias de tendências que partem dos inovadores e early adopters, passam por um período majoritário com grande impacto e influência, e podem chegar até um estado de morte ou hibernação (sim, todas as tendências podem voltar).

É assim que nos faz atentar que a crise de 2008 nos EUA, o questionamento do fast fashion como modelo, o excesso de consumo e a revolução digital influenciaram uma busca por autenticidade que culminou, entre outras coisas, nos food trucks, na volta das barbearias, no boom dos comércios locais. Diante da descrença de modelos e questionamento de comportamentos, surgem formas alternativas de consumir e se expressar. E a macro tendência aqui chama-se “Artesão”.
Nos chama a atenção uma tribo que será cada vez mais importante: os Localtivistas que, além de praticarem um ativismo na sua região, não confiam em grandes instituições e consomem essencialmente produtos de sua localidade. E para o futuro, aponta ainda tendências como “Inside Out Beauty” (beleza que se ingere), “Spring/Summer Is The New Autumm/Winter” (queda das estações marcadas, onde a roupa deve se adaptar para qualquer clima), o “Multi-Tasking Mirror” (que, além de refletir a imagem, revela como está sua saúde) e “Vegetariam Meat” (que não é tipo carne de soja e, sim, vegetais que tem gosto de carne). Ah, e como as tendências renascem, aposta na volta das sandálias “gladiadoras”.

Bruce Mau: o mundo
24 Principles for Massive Change

Se o tempo é um fator fundamental no mapeamento das tendências, Bruce Mau – vencedor do prêmio Cooper Hewitt’s 2016 Design Mind Award e Chief Design Officer da Freeman – já abre sua apresentação afirmando que a qualidade do nosso tempo é diretamente ligada à qualidade do design que temos em nossa volta. “Quando vivemos com um design ruim, vivemos uma vida ruim”, em suas palavras.

Talvez por isso, ao longo da sua carreira, Bruce tenha direcionado sua produção para uma melhor “designed life” demonstrando o impacto do design na melhoria de cidades e países, nas relações humanas, nas relações com a natureza, entre outros. É dele o livro “Massive Change”, que compila projetos notáveis de design que, para além da beleza, provocam mudanças positivas em grande escala, com um objetivo em comum: a perpetuidade da humanidade e do planeta.

Numa apresentação tocante, Bruce nos apresenta casos como o da Guatemala, onde contribuiu para reconstrução do futuro do país após um grande período de guerra. O design aqui pode fazer voltar a sonhar e até reconstruir uma identidade. Com o título de Guate Amala (Amor a Guate), ressignifica o nome do país e inspira guatemaltecas a serem os agentes transformadores do seu futuro. Num outro projeto gigantesco, está refazendo a experiência dos milhões de peregrinos que visitam Meca para evitar perdas de vidas. Projetos em grande escala e com grande impacto.

Da sua visão de design, compartilha princípios necessários para provocar grandes mudanças como “Sketch: hey, everybody, let’s fail” que aponta o erro como parte fundamental de um processo que leva à aprendizagem; “Compete with beauty”, que afirma que tudo o que se faz antes deve ter como princípio básico a beleza para competir com o que já existe no mundo e atrair atenção; “We aren’t separate from or above nature”, que levanta que natureza e humanidade são indivisíveis e “Work on what you love”.

Esther Perel: o Amor
The Future of Love, Lust and Listening

Se Bruce termina sua palestra falando de amor, Esther aprofunda e encara o tema.

Quando a humanidade vivia em pequenas vilas, tínhamos poucas opções de escolha. No entanto, nossas necessidades fundamentais de pertencimento, identidade e continuidade eram preenchidas por um forte senso de comunidade. Com o tempo, passamos a viver em grandes cidades, com mais escolhas, porém mais sozinhos.

Passamos, assim, a ter as tais necessidades fundamentais – pertencimento, identidade e continuidade – depositadas num só parceiro. Está aí o problema da maioria das relações amorosas hoje em dia: um excesso de expectativas para um parceiro só diante de uma “swiping culture tinderiana”, com milhares de possibilidades de parceiros no seu touchscreen. onde “por você, eu deletaria todos os meus apps” é a nova aliança de compromisso.

Em suas palavras, esta realidade não deve ser reduzida a um desafio que precisa de uma solução. Pois não há um caminho só. Mas deve ser encarada como um paradoxo que precisa ser gerenciado.

Palestrante requisitada pelo mundo e icônica terapeutas de casais, Esther se pergunta ainda porque em todos os eventos que participa, fala-se do futuro da alimentação, da locomoção, da moda, entre outros, mas deixa-se de lado o futuro dos relacionamentos. Se pensarmos que a qualidade da nossa vida é diretamente relacionada à qualidade das nossas relações amorosas, tal questionamento faz sentido. Precisamos pensar o futuro do amor e das relações e o caminho para isso é menos emoji e mais escuta sincera.

Tudo isso aconteceu antes da hora do almoço. Este SXSW…

Artigo originalmente publicado no Meio & Mensagem

Foto: frame da palestra de Esther Perel.